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There’s no business like show business

O Rei da Comédia
(The King of Comedy/1983)
Direção: Martin Scorsese • Com: Robert De Niro (Rupert Pupkin), Jerry Lewis (Jerry Langford), Diahnne Abbott (Rita Keane), Sandra Bernhard (Masha), etc



A filmografia de Martin Scorsese é a mais brilhante do cinema americano nos últimos 30 anos. E isso não é pouco. De seu filme de estréia, o chauvinista e experimental “Quem Bate à Minha Porta?”, com Harvey Keitel, até seu mais recente e ambicioso “O Aviador”, há pouquíssimos deslizes. Alguns temas são recorrentes em sua obra, como os códigos de conduta de ‘wise guys’, a gênese da América tal qual a conhecemos e, num nível mais sutil, a deterioração de famílias e casamentos. Mas não é necessária uma análise muito profunda da obra de Scorsese para perceber que, em meio aos temas pelo quais seu cinema ficou conhecido, há também filmes absolutamente únicos e, infelizmente, menos conhecidos. É o caso do excelente “Alice Não Mora Mais Aqui”, libelo feminista perdido numa coleção de filmes de macho e que traz um dos momentos mais inspirados da carreira da ótima Ellen Burstyn. Mas é provável que o exemplar mais curioso assinado por Scorsese em sua prolífica parceria com Robert De Niro – e também o menos visto – seja o obscuro “O Rei da Comédia”.

Absolutamente irretocável e à frente de seu tempo, o filme, que traz ainda um perfeito e já veterano Jerry Lewis, radiografa vários temas pertinentes ao show business e talvez faça mais sentido hoje do que na época de seu lançamento. Com o culto à celebridade ultrapassando qualquer limite minimamente razoável e a TV se pretendendo um espelho do homem comum via shows de realidade, “O Rei da Comédia” mostra o quão ridículo, melancólico e obsessivo pode se tornar o sonho da fama.

Rupert Pupkin (De Niro) é um aspirante a artista de 'stand up comedy' que tem como modelo de sucesso o também humorista e âncora de programa de entrevistas Jerry Langford (Lewis). Em sua busca descontrolada pelo sucesso, ele assedia o bem-sucedido apresentador para tentar arrancar dele uma chance de mostrar suas supostas habilidades humorísticas na TV. Rupert é um dos personagens mais complexos já interpretados por Robert De Niro e um de seus maiores feitos como ator. A atuação excepcional ajuda a dinamitar a idéia de que De Niro estaria preso a certo tipo personagem e não seria assim tão versátil. Além do mais, o trabalho do ator é bastante corajoso, pois Pupkin é um tipinho tão despido de amor próprio que constrange o mais indiferente espectador. Suas tentativas de se aproximar do hermético Langford e sua capacidade de ser desagradável e sem noção do ridículo remetem àquele tipo de vergonha que sentimos por atitudes alheias (e que às vezes são piores que a vergonha por nossas próprias mancadas). Pupkin também preserva um quê de Travis Bickle - personagem de De Niro em "Taxi Driver" -, ou seja, um novaiorquino solitário e perigoso, mas que, ao contrário do motorista de táxi, arma um plano que mais se assemalha a Andy Kauffman.

Da mesma forma, é também embaraçosa – e assustadora – a obsessão das tietes de Jerry Langford, uma das quais amiga e futura comparsa de Rupert (Masha, interpretada com louvor por Sandra Bernhard). Ela faz parte daquele tipo de gente que abdica de qualquer vínculo com a vida real para sonhar com o ídolo de luz e raios catódicos da TV.

“O Rei da Comédia” tem momentos realmente hilariantes, como os delírios de grandeza de Rupert ou seus ensaios solitários com displays de papelão, mas, na média, o que prevalece é o humor negro e um clima de absoluta hostilidade, cujo maior alvo é o próprio mundo do show business.
Outra tacada de mestre de Scorsese é segurar até o final o tipo de esquete de humor que Pupkin pretendia apresentar a Langford como demonstração de seu talento. A capacidade do comediante como ‘entertainer’ permanece sempre em segundo plano, ofuscada pela sua corrida descontrolada por um lugar nos holofotes. E o azedume do personagem de Jerry Lewis – em exuberante interpretação – diz muito sobre o que ele próprio, como showman e produtor, aprontou em seus anos em Hollywood.

Até pouco tempo inédita em qualquer formato no Brasil – não tinha saído sequer em VHS –, essa gema perdida da carreira de Martin Scorsese foi resgatada para DVD pela Fox sem grande estardalhaço e, até por isso, não é achada facilmente nas videolocadoras. Mas (re)descobrir um filme desse quilate deve ser motivação suficiente para tirar qualquer cinéfilo de casa…




 Escrito por Mr Eddy às 05h56
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